Estamos prontos para o dinheiro completamente digital? - Fargotech

Estamos prontos para um novo tipo de dinheiro completamente digital?

Neste mês, alguns de vocês que me acompanham nas redes sociais, viram que iniciei minha participação em um programa de Transformação Digital do MIT – Massachusetts Institute of Technology e a leitura do livro TRANSFORMAÇÃO DIGITAL – Repensando o seu negócio para a era digital de David L. Rogers.

Essas duas iniciativas foram tomadas com o objetivo de adquirir novos conhecimentos para agregar ainda mais valor às soluções de Infra/Cloud ofertadas atualmente pela FARGOTECH. Penso em uma metodologia para ser compartilhada com empresas brasileiras que, neste momento de pandemia, precisam se reinventar para continuar desempenhando suas atividades. Há algum tempo, escutava que “Tecnologia é o futuro”. Hoje, digo que “Tecnologia é o presente”. 

Para minha grata surpresa, logo no início de minha jornada neste programa, deparo-me com alguns conceitos interessantes: “As regras de negócios mudaram…  não venda produto, crie uma plataforma”, “À medida que a tecnologia assume importância crescente nas interações de todos os clientes, é possível que surjam rivalidades entre as áreas de marketing e TI” (aqui fica uma dica: é fundamental que as duas disciplinas aprendam a trabalhar juntas, com eficácia, apesar das diferenças de cultura, de orçamentos e prioridades) e, por último,  Blockchain como a ponta da Transformação Digital e Moeda Digital (que inspira o título deste artigo que escrevo para vocês).

A sociedade e o impacto das cryptomoedas digitais

Quero convidá-los a parar um pouco e pensar: estamos prontos para viver uma era completamente digital? Você deve pensar que sim, mas e o restante da população? Será que questões simples para nós como um esquecimento de uma senha ou uma planilha que não é salva no diretório da rede pode ser um grande empecilho e motivo de deteriorar a paciência de um cidadão analógico? (Tecnologicamente dizendo, acabei de criar esse termo rs). E a preocupação com a lavagem de dinheiro por meio das cryptomoedas? E os golpes que vemos diariamente? 

Depois desta pequena reflexão, quero compartilhar com vocês algumas iniciativas que aconteceram na semana que escrevo este artigo: 

  1. Governo da China cria sua própria moeda digital
  1. Povo indígena desenvolve sua moeda digital para ajudar na economia de povos tradicionais em Rondônia
  1. Banco central no Brasil pretende iniciar o Real Digital

Estamos caminhando para ser possível adotar uma moeda completamente digital, pois temos:

  • 100 milhões de usuários cadastrados e que utilizam os serviços do Governo Federal por meio da plataforma MeuGov.br;
  • 424 milhões de dispositivos móveis digitais em uso no Brasil, segundo estudo coordenado pelo professor Fernando Meirelle, da FGV EAESP, em 8 de Junho de 2020.

As três fases do Dinheiro Digital

Inspirado nas palavras de meu colega Marco Nitti, quando falamos em digitalização do dinheiro, temos três claras fases:

  • Dinheiro digitalizado com controle centralizado;
  • Dinheiro digitalizado com controle centralizado utilizando a Blockchain;
  • Dinheiro digitalizado descentralizado utilizando a Blockchain.

Primeira Fase

Falando da primeira fase, o fenômeno da digitalização do dinheiro está acontecendo já há muito tempo e podemos afirmar que o dinheiro hoje é, em boa parte, digital. Neste artigo de 2017, já se falava sobre o fenômeno em contínua evolução do desaparecimento do dinheiro em forma de “cash”. Este artigo mais recente, mostra como, na verdade, existem três diferentes formas de dinheiro (com base a subdivisão da Federal Reserve Estadunidense). A primeira forma é em espécie e moeda “tradicional”, o restante são moedas em formas de depósitos, fundos etc.

Resumidamente, de um montante total de 1,2 quadrilhões de dinheiro que circula no mundo, somente 37 trilhões são em moeda tradicional. Além disso, a fatia de dinheiro físico, na verdade, é potencialmente ainda menor. Isso porque, com o sistema bancário, atual está atrelado ao conceito de reserva fracionária, onde os bancos precisam manter no caixa uma porcentagem mínima (em alguns países é apenas de 1%) do dinheiro efetivamente depositado. O resto pode ser emprestado, poupado, aplicado etc., como detalha este artigo do Wikipedia:

 

“Como os bancos possuem reservas em valores inferiores aos valores de seus passivos de depósito, e porque os passivos de depósito são considerados dinheiro em seu próprio direito […], o banco de reserva fracionada permite que a oferta de dinheiro cresça além da quantidade do dinheiro base subjacente, originalmente criado pelo banco central”.

Ou seja, boa parte do dinheiro que já circula, de fato, existe não de forma física, mas digitalmente nos registros dos bancos.

Segunda Fase

A introdução da tecnologia Blockchain, como plataforma para suportar transações de dinheiro digital ao redor do mundo é também um fenômeno que está evoluindo rapidamente. As discussões com relação à introdução de uma moeda completamente digital estão em fase de análise avançada em muitos países como a China. O FMI, o G20 e o BIS (Bank of International Settlements, também conhecido como o “Banco dos Bancos”) estão trabalhando para estabelecer padrões internacionais para regular a emissão de moedas digitais soberanas.

Além disso, alguns países como, por exemplo, Bahamas, já têm uma própria Moeda Digital soberana (o Sand Dollar) ativa desde outubro de 2020, após um projeto piloto iniciado em 2019. Indico aqui um artigo e um site para mais informações.

De forma geral, eu entendo que a abordagem que está sendo seguida é introduzir a tecnologia Blockchain mantendo um controle centralizado por parte dos bancos, eliminando uma das características mais peculiares da Blockchain: a descentralização. Os benefícios da introdução da nova tecnologia são, com certeza, maior segurança nas transações e maior facilidade de acesso a serviços financeiros para os países em desenvolvimento. 

Simplificando o Dinheiro Digital

Neste artigoTommaso Mancini-Griffoli (chefe de divisão do Fundo Monetário Internacional) tenta explicar para própria mãe 🙂 o que é uma moeda digital e quais são os benefícios.

O texto é bem interessante porque, além de explicar de forma simples os benefícios de uma moeda digital, ressalta também algumas das preocupações dos bancos com a introdução deste tipo de instrumento:

  • Se fosse introduzida uma Moeda Digital e todo mundo decidisse retirar o próprio dinheiro do banco e manter tudo guardado na própria carteira digital, o que aconteceria com a função que os bancos têm de financiar as atividades econômicas das empresas?
  • Podemos pensar em manter o anonimato das transações dentro de um sistema de Moeda Digital já que isso facilitaria demais o financiamento de atividades ilícitas? 

Se, por um lado, a preocupação com o sistema de financiamento das empresas e a luta contra atividades ilícitas é um ponto crucial, por outro, o uso da tecnologia Blockchain sob o controle de poucas instituições, que teriam o poder de monitorar todas as transações, pode ameaçar o nosso direito de fazer micro-transações anônimas, e em última análise, a nossa privacidade. Hoje, ninguém conhece a nossa localização se fazemos um pagamento em dinheiro na padaria. Isso já não será a verdade se não foram garantidas micro-transações anônimas.

Terceira Fase do Dinheiro Digital

Com relação à terceira fase, ou seja, a introdução de uma moeda completamente descentralizada, na minha opinião, demorará muito para se realizar. Possivelmente, isso nunca acontecerá de forma plena, porque significaria para os bancos centrais e as instituições financeiras, finalmente, perder o controle da política monetária com riscos difíceis de se prever.

A moeda completamente descentralizada (como o Bitcoin) é um digital-asset interessante e destinado a crescer, mas acredito que será regulado para garantir que não venha a substituir as moedas nacionais.

Acredito que o cenário mais provável, no futuro próximo, seja a introdução de moedas digitais que usam a tecnologia Blockchain para garantir maior inclusividade e pagamentos mais fáceis e seguros, porém sob o controle centralizado das instituições. Esta é uma realidade que já está se concretizando, mas que também traz consigo alguns riscos que devem ser devidamente avaliados.

Comments are closed.